vergonha

 Eu tenho vergonha da efemeridade das pessoas. Quando alguém me diz que teve paixões intensas e rápidas que morreram com o mesmo fervor que começaram, eu enxergo uma certa sofisticação. Poder se apaixonar em uma semana é exatamente tão difícil quanto esquecer alguém em dez dias. 


Um dia um rabino me leu como um livro e disse que eu precisava parar de tratar pessoas como vultos na minha vida. E até hoje eu me pergunto se segui seu conselho corretamente, e eu nem acredito tanto assim em religião. 


Quando ouvi isso, reconheci que sempre contei com minha facilidade de amar pessoas como uma ferramenta para, também, substituir pessoas. Percebo que passo pelos mesmos lugares com pessoas diferentes, faço as mesmas observações e me divirto com a diferença nas reações. Como se eu estivesse selecionando o elenco para uma peça que só eu assisto, enquanto a dirijo. Definitivamente é uma comédia, eu rio muito das coisas que faço as pessoas dizerem. 


Enfim, ouvi o conselho, comecei a namorar o cara que corria atrás de mim, aguentei por 7 anos um relacionamento que nem me fazia feliz, tudo para provar que nem tudo é efêmero. Saí sentindo que perdi meu tempo, decidi então que teria paixões, não mais amores, sei lá. Conheci a mulher da minha vida, conversamos sobre casamento, família, carreira, mas eu decidi que agora precisava ser efêmero e fiz de tudo para que fosse. Eu sei que ela ainda está lá para quando, se, eu decidir olhar para a eternidade. 


Hoje eu já não sei. Com certeza tenho vergonha de dizer que algo durou menos de um ano, acho que sou melhor do que isso. Ainda assim, meu medo já não é mais a perda de tempo, é o ego. A sensação de estar desperdiçando não o meu, mas definitivamente algum, tempo faz com que me sinta apenas idiota. 


Eu sei, não cabe a mim avaliar a qualidade das decisões alheias e nem pensar e justificar porque outra pessoa decide passar o tempo dela comigo. Mas a verdade é que ele não tem motivos para gostar de mim. Alguém tem, com certeza, mas eu não consigo agradá-lo, não como eu acho que ele deve ser agradado. 


O problema é que eu já não sei se isso é verdade ou apenas a minha ansiedade me dizendo que, se ele não me ama, se eu não consigo me sentir amada, de alguma forma isso precisa ser culpa dele. Eu consigo repetir para mim que tudo isso é da minha cabeça e eu nunca estou satisfeita e toda a atenção e afeto do mundo ainda não são suficientes quando eu me permito ser insegura. 


Repito para mim mesma todas as qualidades que ele já atribuiu a mim e sinto que todas elas já morreram ou estão em seus últimos dias. Não sei explicar, mas eu me sinto imediatamente feia e desinteressante ao me sentir minimamente amada.


Claro que eu tenho vergonha da efemeridade, mas eu tenho mais vergonha ainda de dizer tudo isso a alguém. 

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