futuros

 E se eu te dissesse que quero tudo, sem medo, sem dúvida. No tempo certo, moraríamos juntos, aprenderíamos a conviver de forma completamente doméstica, compartilharíamos nossas finanças, planejaríamos nossas férias em função um do outro. Até que um dia, daqui a alguns anos, não muitos, você me pediria e eu diria que sim. Talvez numa viagem, toda vez que imagino como isso aconteceria, penso que teria que ser em Nova York, para que eu pudesse ir correndo contar para minha melhor amiga. Você, seguindo a tradição, já teria comunicado meus pais dos seus planos, e provavelmente faria questão de planejar algo especial para o dia, embora respeite meu desejo que seja feito de forma escondida, sem escândalo. 


Talvez fosse pela manhã, e logo na sequência almoçaríamos com minhas amigas, momento perfeito para você sair por um tempo maior do que o necessário para que eu possa falar com elas honestamente sobre o ocorrido. Elas ririam da minha cara, mas ficariam felizes. Consigo enxergar no rosto delas a mesma preocupação da minha mãe ao dizer “é isso mesmo que você quer?”. Essa é a loucura de crescer num ambiente muito moderno, ninguém confia quando alguém diz que quer casar. 


Talvez você tenha se planejado o suficiente para que meus pais nos encontrem na viagem, para que eu possa ver a cara de decepção da minha mãe, e a felicidade estúpida do meu pai, que nunca pensou sobre o que eu queria, só torceu por mim. Então continuaríamos a viagem, agora muito mais alegres, falando e fazendo planos ainda não tão realistas, e eu sei que você estaria feliz. 


Agora, e se eu avisasse já que não vai dar. Eu não quero seu nome, nem em mim, nem em quem sair de mim. Não quero sua família na minha família, não quero morar onde você mora, não quero nada. Você se sentiria rejeitado, como eu sei que já se sentiu, mas não o suficiente para uma briga. Talvez então finalmente decidiria que existe sim espaço na sua vida para mais do que eu. Avisaria que vai viajar com os amigos, espairecer. Quando você voltar, eu já estarei ajustada ao novo regime que não foi comunicado. 


Chego sempre depois de avisar. Ligo 20 minutos antes, 10, 5, todas as precauções para não descobrir mais do que eu devo saber. O quarto fica mais escuro, para não ver as marcas que eu não quero te contar de onde vieram. Os convites se tornam negociações, os planos se tornam incertos, ainda que muito mais planejados do que antes. Eventualmente, porque ainda nos amamos, eu ainda vou pensar sobre a distância da minha casa para a sua. Talvez moremos até no mesmo prédio. Talvez minha filha te chame de tio. 


Talvez você se case, e sua esposa não me queira perto de você. Talvez você acabe não vivendo o que quer porque eu não quero, mas também não te deixei livre. Talvez você tenha que afirmar para sempre para sua família que somos apenas bons amigos agora e que você está feliz vivendo a vida de um solteirão 40+. Talvez sua mãe, nas poucas vezes que me vir, me olhe com ressentimento, por saber algo que você nega a si mesmo. 


Entretanto, minha família vai ficar feliz, vai gostar de te ver, de saber que você se sujeitou a isso. Minha mãe ficaria orgulhosa de saber que eu escolhi todos os termos da minha vida, e todos te tratariam melhor, por saber que eu não sou sua. 


Será que você vai buscar minha filha na escola quando eu precisar de um favor? Ou será que vai dizer que isso seria papel de um pai, e eu vou ouvir na sua voz o ciúmes, a vontade. Será que você vai, como sempre fez, esperar meus momentos mais distraída para fazer perguntas sem resposta, para me fazer repetir meu amor?


Pode ser ainda que nada aconteça, que seja isso aqui para sempre. Talvez moremos juntos, mas nada mais. Talvez o tempo para decidir se quero ser mãe passe, talvez a gravidez seja acidental e você seja forçado a ser o pai. Talvez estejamos exatamente aqui, com 50 anos, namorando, e todos nos achem muito jovens e interessantes porque preenchemos nosso tempo com algo além das normas sociais. 


Pode ser ainda que nem duremos o ano, quem sabe.

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