rio
Quando eu era criança, meu pai adorava me contar a história da primeira vez que sobrevoou o Rio Amazonas. A história começava sempre com o mesmo preâmbulo, ele que cresceu pobre, sonhava em trabalhar viajando, e não existia nada mais glamuroso do que sair de São Paulo e chegar na Amazônia, sem gastar, e ainda recebendo.
Ele diz que estava tão animado com a viagem, que assim que entrou no avião, pediu para o comissário avisá-lo quando passassem pelo Rio, ao que o comissário respondeu “quando passarmos, você vai saber”. Insatisfeito, ficou a viagem toda com o olho colado na janela, não queria perder a experiência, queria degustar cada gota do Rio.
Logo, o norte foi se aproximando, e ele avistou um corpo d’água muito maior do que poderia imaginar. Chamou o comissário ansioso e perguntou “é esse?” Ao que o comissário respondeu que ainda não, mas quando fosse, ele não precisaria perguntar. Mais algumas águas quaisquer rolaram, meu pai sempre impressionado com suas grandezas e belezas, mas sempre recebendo o mesmo conselho cauteloso do comissário.
Até que, já derrotado, quase desistindo de observar aquele vidro que ora mostrava árvore, ora água, agora para ele tudo igual, mas ainda preso na beleza que insistia em existir, foi tomado por uma enchente negra. Diz ele que, de repente, não se via mais nada, apenas o próprio céu refletido abaixo. De repente, tudo era rio, e ele soube, sem precisar perguntar a ninguém, que ali estava o Rio. O comissário então o olhou com um meio sorriso, meio debochado, meio em parceria. Agora todos naquele avião eram tomados pela mesma admiração à água. Era a mesma água, mas agora ela era gigante, e ninguém precisava de nenhum outro dado para saber que ali, então, era diferente, maior, melhor.
E assim se faz a vida, muitas belezas são vistas até que, de repente, tudo é rio.
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