espelho d'água
Depois de correr descalça por mais de dez quilômetros, finalmente ela cansou. Parou sentindo os pés na areia, tentou contar cada grão que abraçava seus dedos como se fossem delicados. Respirou fundo, como se se preparasse para voltar a fugir. Encarava aquela areia cinzenta que sente o mar com maior frequência do que a devida para manter beleza. Será mesmo que não tem nada nem ninguém correndo atrás dela?
Num esforço de humildade, lembrou-se que a única coisa que a caça é o tempo, e ela que caça o resto. Lembrou-se que não é um animal selvagem, nem uma pessoa sendo perseguida, não há perigo. Respirou fundo. Por que, afinal ela corre? Será que corre em busca do corpo ideal ou será que corre dos seus medos?
Hora de correr de novo, eles estão se aproximando. Ela olhava aquela paisagem completamente linda e pensava que ela mesma não ornava. Daí ela lembrava de quando, tentando ser divertida, falou que adorava essa palavra “ornar" - falava forçando um sotaque caipira, torcendo para ninguém perceber que tentava imitar a mulher mais interessante que conhece.
Agora não sentia a areia, sentia os leves arranhões na sola do pé. Se deliciava nas pequenas dores que a sociedade a permitia causar a si mesma. Ela preferia os esportes radicais para poder carregar como prêmios os hematomas que ganhava em cada obstáculo vencido.
Agora seus pés doíam mais do que sua melancolia a permitia aguentar. Parou agora derrotada, não se sentia sequer digna do abraço daquela areia feia e cinza. Foi para o mar, torcendo para que uma onda a punisse. Mais do que o sólido e áspero, adorava a força bruta daquele grande corpo d’água.
Deu os primeiros passos em direção a água e percebeu que aquela entidade incorpórea não se interessava por ela. Nenhuma onda, nada se comovia com sua presença. Ali, naquele mar calmo que a debochava, viu a pior realidade de todas. Pensou no quão ridícula e patologicamente egocêntrica tem que ser a pessoa que vê seu reflexo no oceano aberto.
Estava modificada, claro, a pele mais escura, os cabelos mais longos, os olhos menores de tanto estreitá-los. Olhou para aquele retrato de obra depois da catástrofe e pensou que estava mais bonita. Será que realmente era mais bonita quando triste ou será que a tristeza é que era linda. Será que não consegue nem ser triste sem ceder à própria vaidade de ter que avaliar sua beleza?
Percebeu finalmente o que a caçava incessantemente. Era tarde demais, foi pega logo e não tinha como resistir. A luta que travava era intensa, sentia unhas. Não, facas. Não, dentes. Não, por favor, não.
Sentia por fim a água movendo seu cabelo longo, que parece macio quando submerso.
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