fera
Os fios do veludo refletem a vida que já passou. Partes molhadas de bebidas meladas - nojentas, iluminadas. A cortina maior do que o pé direito garante total suspense, nada pode ser visto, nem sequer seus pés. Ainda assim se sabe que, do outro lado, prestes a entrar, está a fera.
Sua respiração alta, errática, ora reconfortante, ora aterrorizante. Expira com raiva, inspira suave, inaudível. Segundos se passam e minhas mãos agora estão inquietas. Sinto meus dedos no veludo vermelho, macio, grudento, velho, usado. A fera retorna com passos fortes e largos, agora à minha direita, não mais à minha frente.
Num reflexo masoquista meu coração se acalma ao lembrar da ameaça. Ainda bem que ela ainda me procura. Eu não vejo seus pés - ou seriam patas? - mas sei que um passo em minha direção e eu veria meu fim.
Em meio a toda a minha angústia lembro que estou num palco, mas não consigo mais sentir os olhos da plateia. Ainda me pergunto porque alguém pagaria para assistir uma pessoa quase sofrer. Se não vão me ver sendo devorada, que ao menos me vejam agonizar. Não, eu não consigo fazer com que ela me queira mais do que a ameaça, mas eu consigo sofrer.
A fera está quieta, esqueceu já que devia me odiar. Eu não me esqueci, piso forte, corro de um lado para o outro, acelero meus batimentos o suficiente para ela se deliciar com o gosto do meu medo, torcendo para que ela não perceba que é forjado.
Será que minha indiferença finalmente a irritaria a ponto de acabar com minha angústia? Será mesmo que ela me quer aqui, esperando pelo bote? Decido então fingir tranquilidade. Respiro fundo, até sento no chão sujo.
A calma também não é uma opção. Se a fera já não se importa com o meu medo, agora penso nas pessoas me assistindo. Será que minha postura está ereta? Ou seria melhor aparentar desespero, desilusão? Se não estou sofrendo, será que pelo menos sou boa de olhar? Será que me olham, ou olham para a cortina que balança vagarosamente.
Sentada, joelhos no peito, sinto o veludo tocar meu ombro, agora meu pescoço, por fim, um vento quente e úmido toma conta dos meus cabelos num afago que me responde, finalmente. Ela não me odeia, ela não sabe quem eu sou.
Comments
Post a Comment
Leave anything you'd like, positive or negative, I'm all ears!