sol vs. água

 Dentro da água não se vê o sol. Sempre dá para saber, quando é noite e quando é dia, mas não dá para ver o sol. 


As rochas ficam maiores conforme a escuridão toma conta de tudo. Os animais ficam mais feios, menos observados. Aquele corpo fica cada vez mais perigoso, misterioso. 


Há de se retornar ao raso, onde ele está. Onde está o sol? 


O sol ilumina tudo aquilo que se recusa a se revelar. Os animais continuam frios, as rochas continuam escorregadias e pontudas. 


O mergulho é fatal, a pressão d’água aumenta tão rapidamente que nenhum objeto aguentaria essa mudança brusca. Um corpo qualquer explodiria com o impasse criado dentro de si. Um exterior que o esmaga enquanto todas as belezas e medos do fundo lhe são reveladas uma a uma. E nisso o sol se perde, perde-se o sol. 


A restrição é a única tática de sobrevivência possível. De que vale o mistério quando se pode decifrá-lo? 


Os raios que queimam cada gota que forma aquele grande corpo e se mantêm, sempre, mais belos do que qualquer criatura inimaginável, guardada a sete pés. 


Talvez na verdade o truque seja mergulhar de uma vez, acabar com o limite de um corpo e de outro, deixar as entranhas serem engolidas pelos vermes aquáticos que insistem em brilhar, longe da luz. 

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